domingo, 20 de maio de 2012

Por que os jornalistas estão adoecendo mais

Por Elaine Tavares O psicólogo, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Roberto Heloani, conseguiu levantar um perfil devastador sobre como vivem os jornalistas e por que adoecem. O trabalho ouviu dezenas de profissionais de São Paulo e Rio de Janeiro, a partir do método de pesquisa quantitativo e qualitativo, envolvendo profissionais de rádio, TV, impresso e assessorias de imprensa. E, apesar da amostragem envolver apenas dois estados brasileiros, o relato imediatamente foi assumido pelos delegados ao Congresso de Santa Catarina – que aconteceu de 23 a 25 de julho – evidenciando assim que esta é uma situação que se expressa em todo o país. Segundo Heloani, a mídia é um setor que transforma o imaginário popular, cria mitos e consolida inverdades. Uma delas diz respeito à própria visão do que seja o jornalista. Quem vê a televisão, por exemplo, pode criar a imagem deformada de que a vida do jornalista é de puro glamour. A pesquisa de Roberto tira o véu que encobre essa realidade e revela um drama digno de Shakespeare. Deixa claro que, assim como a absoluta maioria é completamente apaixonada pelo que faz, ao mesmo tempo está em sofrimento pelo que faz, o que na prática quer dizer que, amando o jornalismo, eles não se sentem fazendo esse jornalismo que amam, sendo obrigados a realizar outra coisa, a qual odeiam. Daí a doença! Um dado interessante da pesquisa é que a maioria do pessoal que trabalha no jornalismo é formada por mulheres e, entre elas, a maioria é solteira, pelo simples fato de que é muito difícil encontrar um parceiro que consiga compreender o ritmo e os horários da profissão. Nesse caso, a solidão e a frustração acerca de uma relação amorosa bem sucedida também viram foco de doença. O aumento da multifunção Heloani percebeu que as empresas de comunicação atualmente tendem a contratar pessoas mais jovens, provocando uma guerra entre gerações dentro das empresas. Como os mais velhos não tem mais saúde para acompanhar o ritmo frenético imposto pelo capital, os patrões apostam nos jovens, que ainda tem saúde e são completamente despolitizados. Porque estão começando e querem mostrar trabalho, eles aceitam tudo e, de quebra, não gostam de política ou sindicato, o que provoca o enfraquecimento da entidade de luta dos trabalhadores. "Os patrões adoram porque eles não dão trabalho." Outro elemento importante desta "jovialização" da profissão é o desaparecimento gradual do jornalismo investigativo. Como os jornalistas são muito jovens, eles não têm toda uma bagagem de conhecimento e experiência para adentrar por estas veredas. Isso aparece também no fato de que a procura por universidades tradicionais caiu muito. USP, Metodista ou Cásper Líbero (no caso de São Paulo) perdem feio para as "uni", que são as dezenas de faculdades privadas que assomam pelo país afora. "É uma formação muitas vezes sem qualidade, o que aumenta a falta de senso crítico do jornalista e o torna mais propenso a ser manipulado." Assim, os jovens vão chegando, criando aversão pelos "velhos", fazendo mil e uma funções e afundando a profissão. Um exemplo disso é o aumento da multifunção entre os jornalistas mais novos. Eles acabam naturalizando a ideia de que podem fazer tudo, filmar, dirigir, iluminar, escrever, editar, blogar etc... A jornada de trabalho, que pela lei seria de cinco horas, nos dois estados pesquisados não é menos que 12 horas. Há um excesso vertiginoso. Doença é consequência natural Para os mais velhos, além da cobrança diária por "atualização e flexibilidade", há sempre o estresse gerado pelo medo de perder o emprego. Conforme a pesquisa, os jornalistas estão sempre envolvidos com uma espécie de "plano B", o que pode causa muitos danos a saúde física e mental. Não é sem razão que a maioria dos entrevistados não ultrapasse a barreira dos 20 anos na profissão. "Eles fatalmente adoecem, não aguentam." O assédio moral que toda essa situação causa não é pouca coisa. Colocados diante da agilidade dos novos tempos, da necessidade da multifunção, de fazer milhares de cursos, de realizar tantas funções, as pessoas reprimem emoções demais, que acabam explodindo no corpo. "Se há uma profissão que abraçou mesmo essa ideia de multifunção foi o jornalismo. E aí, o colega vira adversário. A redação vive uma espécie de terrorismo às avessas." Conforme Heloani, esta estratégia patronal de exigir que todos saibam um pouco de tudo nada mais é do que a proposta bem clara de que todos são absolutamente substituíveis. A partir daí o profissional vive um medo constante, se qualquer um pode fazer o que ele faz, ele pode ser demitido a qualquer momento. "Por isso os problemas de ordem cardiovascular são muito frequentes. Hoje, Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs) e o fenômeno da morte súbita começam a aparecer de forma assustadora, além da sistemática dependência química". O trabalho realizado por Roberto Heloani verificou que, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, 93% dos jornalistas já não tem carteira assinada ou contrato. Isso é outra fonte de estresse. Não bastasse a insegurança laboral, o trabalhador ainda é deixado sozinho em situações de risco nas investigações e até na questão judicial. Premidos por toda essa gama de dificuldades, os jornalistas não têm tempo para a família, não conseguem ler, não se dedicam ao lazer, não fazem atividades físicas, não ficam com os filhos. Com este cenário, a doença é consequência natural. Transformados em sócios-cotistas O jornalista ganha muito mal, vive submetido a um ambiente competitivo ao extremo, diante de uma cotidiana falta de estrutura e ainda precisa se equilibrar na corda bamba das relações de poder dos veículos. No mais das vezes, estes trabalhadores não têm vida pessoal e toda a sua interação social só se realiza no trabalho. Segundo Heloani, 80% dos profissionais pesquisados tem estresse e 24,4% estão na fase da exaustão, o que significa que de cada quatro jornalistas, um está prestes a ter de ser internado num hospital por conta da carga emocional e física causada pelo trabalho. Doenças como síndrome do pânico, angústia e depressão são recorrentes e há os que até pensam em suicídio para fugir desta tortura, situação mais comum entre os homens. O resultado deste quadro aterrador, ao ser apresentado aos jornalistas, levou a uma conclusão óbvia. As saídas que os jornalistas encontram para enfrentar seus terrores já não podem mais ser individuais. Elas não dão conta, são insuficientes. Para Heloani, mesmo entre os jovens, que se acham indestrutíveis, já se pode notar uma mudança de comportamento na medida em que também vão adoecendo por conta das pressões. "As saídas coletivas são as únicas que podem ter alguma eficácia", diz ele. Quanto a isso, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Rubens Lunge, não tem dúvidas. "É só amparado pelo sindicato, em ações coletivas, que os jornalistas encontrarão forças para mudar esse quadro." Rubens conta da emoção vivida por uma jornalista na cidade de Sombrio, no interior do estado, quando, depois de várias denúncias sobre sobrecarga de trabalho, ele apareceu para verificar. "Ela chorava e dizia, `Não acredito que o sindicato veio´. Pois o sindicato foi e sempre irá porque só juntos podemos mudar tudo isso." Rubens ainda lembra dos famosos pescoções, praticados por jornais de Santa Catarina, que levam os trabalhadores a se internarem nas empresas por quase dois dias, sem poder ver os filhos, submetidos a pressão, sem dormir. "Isso sem contar as fraudes, como as de alguns jornais catarinenses que não têm qualquer empregado. Todos são transformados em sócios-cotistas. Assim, ou se matam de trabalhar, ou não recebem um tostão."

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O bom do furacão

Há coisas que pensamos acontecer por mero acaso. Hoje lembrei da teoria do cáos do matemático Edward Lorenz. Ele disse que "o bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque". Acho que, mesmo em meio as tragédias provocadas por um furacão, sempre existe algo bom num evento catastrófico. Ele imprime mudanças profundas na base da força. Nossa vida também pode ter eventos do tipo. As vezes precisamos fazer escolhas complicadíssimas, não-conservadoras. Escolhas que podem até ser incompreendidas. É como aquele remédio de dosagem alta que vem com uma tarja preta de alerta para o perigo. Mas quando o paciente precisa, temos que administrá-lo. Existe um mundo lá fora que continua girando. Dizem que o medo é nossa defesa natural contra a certeza da morte. Pra mim, a característica mais detestável desse sentimento, é seu poder paralisante. Não deixemos que o medo interrompa nossa caminhada. Se o furacão vai chegar, iniciemos a preparação. A única coisa permanente da vida é a mudança.

domingo, 15 de abril de 2012

Sonhos são cruéis

Um sonho te bagunça
Te chama pro que quer
Mesmo os sonhadores sabem o que é impossível
Mas não param de sonhar
Até o que querem esquecer

Sonhei que era um super-herói
Via cenas horrorosas
Lutava pelo fim delas
Mas uma hora me deparei com a minha cena horrorosa
E lutei pelo reinício dela
Com todo amor que alguém poderia relutar
Coisa de sonho mesmo
Porque acordado, já desisti faz tempo.

O super herói aqui ia embora
Voando feliz, esperançoso
Mas aqui, na vida real
Não voo...
Não sou super-herói...
Não tenho chances.

Aqui só há minha vida
A ser tocada.

Como esses sonhos impossíveis
são cruéis!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ausência

A saudade de você
era como uma entidade
e eu carregava a sua ausência
numa mochila fraca
de alça quase arrebentando

porque mesmo morto ou acabado
era o seu amor que iluminava a minha vida
e por essa razão
era preciso seguir
de joelhos
tropicando
suando frio
até o dia em que você decidisse

voltar

(Lícia Manzo)

Só entende as palavras dessa grande poeta quem, um dia, perdeu um grande amor.
Um abraço a todos os leitores deste blog.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tio Guilherme

Estas próximas linhas contém um texto que pode ser muito forte pra quem viveu o assunto. Recomendo prudência aos meus familiares que vão ler.

Em 2001, meu tio Guilherme foi assassinado a mando da própria namorada. O crime deixou uma ferida aberta em todos da minha família. Nos sentimos tocados pela mão cruel da violência. Eu só tinha 16 anos.

Lembro do meu pai um pouco estranho em casa poucos momentos depois de receber um telefonema sobre o desaparecimento do próprio irmão. Foram várias ligações naquela noite e o dia seguinte ainda foi de angústia porque todos permaneciam sem notícias.

Dois dias depois, meus pais me disseram que o corpo foi encontrado em um matagal na periferia do Recife.

Tio Guilherme namorava com esta moça havia pouco tempo, segundo relatos da família. Os dois teriam se conhecido na rua. De dentro do carro, ele a olhou e ela deu bola. Para os amigos, os comentários dele sobre essa mulher se davam sempre acompanhados da palavra 'pitelziho'.

A situação financeira desse meu tio era boa pois ele havia trabalhado a vida inteira num cargo de gerência regional da Johnson&Johnson, se aposentou cedo e abriu uma pizzaria voltada para entregas em domicílio. Ou seja, tornou-se empresário.

Segundo a investigação policial que aconteceu depois do crime, tio Guilherme foi vítima de uma emboscada. Em um dos dias em que estava com essa namorada no carro, ele teve o veículo invadido por comparsas dela. Depois de sacarem dinheiro em um caixa eletrônico, os bandidos teriam perguntado o que fazer. E a tal 'pitelzinho' teria optado pelo homicídio, já que ele a conhecia, sabia onde morava, tinha posses. Foi algo torpe, fútil, sem chance de defesa.

Me lembro claramente do dia do velório. Nunca havia visto minha avó naquele estado. Todos os meus tios ou choravam ou tinham nos rostos uma expressão inconformada idêntica às que hoje vejo a cada reportagem policial que tenho que cobrir quando o assunto é violência, homicídio. Quando a família está por perto do corpo da vítima, é sempre horrível pra mim porque recordo este episódio da minha família.

A quadrilha foi toda presa, inclusive a 'pitelzinho'. O caso saiu na imprensa local recifense, na época. Apesar da justiça ter sido feita, a dor latente foi algo demorou pra se dissipar. Já são onze anos e minha avó nunca voltou a ser exatamente o que era. E acho que nunca vai voltar. Meu pai também mudou muito desde o ocorrido. Entre meus tios, não posso afirmar com exatidão o que mudou em cada um deles. Mas pra mim, como sobrinho dessa família, aqueles dias pós assassinato foram terríveis. Houve muita gente com medo de sair nas ruas. Escutei algumas pessoas cogitando vingança sempre rezando para que nada daquilo fosse levado adiante pois nada o traria de volta. Acho que o grande desafio coletivo neste caso foi perdoar os bandidos. Parece algo impossível, não é? Mas tenho certeza que muitos já perdoaram. E a vida tratou de encaminhar o resto.

O tempo passou. A filha de tio Guilherme se casou e agora tem uma família linda. O filho dele, que também tem o mesmo nome, cresceu e tornou-se um jovem trabalhador como o pai era. A ex-esposa dele também prosperou. E minha avó hoje consegue sorrir de novo mesmo tendo quase noventa anos e passado por um câncer.

Queria muito que todos os meus familiares pudessem esquecer aquele mal horrível e conservar apenas uma imagem boa de tio Guilherme. Afinal de contas, morto só está quem foi esquecido. E a vida tem que continuar. É preciso perdoar de coração mesmo que isso seja a última coisa que desejemos fazer.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Natal-Recife pelo ar


Ando voando muito numa rota praticamente insignificante para o mercado aéreo brasileiro: Natal-Recife-Natal. Tenho família no Recife, então vivo indo e vindo.

Já testei a TAM, GOL, Webjet, e a Avianca. Eis uma breve avaliação:

TAM- anda muito cara na comparação com as outras. Talvez por isso tenha deixado a rota temporariamente. Mas ela tem a melhor equipe de comissários, bons aviões. Airbus são silenciosos. O serviço de bordo é 'adequado'. E as aeromoças conseguem fazer tudo em menos de meia hora, já que trata-se de uma etapa muito curta. Bombom ainda em solo, bebida fria e lanche em nível de cruzeiro.

GOL- Gosto muito. É bem prática. Eles abrem a promo pelo site e a gente precisa ser esperto para pescar as boas tarifas que não são anunciadas, mas que estão lá baratíssimas para a gente comprar. O preço justo, justíssimo: até 150 reais + taxas compensa o conforto de cumprir 4 horas de estrada em apenas 30 minutos da viagem de avião. O serviço de bordo é praticamente nulo! Quando a tripulação é boa, resolve fazê-lo completo. O que significa ser igual a essa foto abaixo:
Na maioria dos voos, a tripulação resolve cruzar os braços e não servir. Mas se você pedir um copinho de água, eles fornecem tranquilamente. A revistinha de bordo tá inclusa no preço.

Webjet- Essa companhia aérea consegue fazer o que nenhuma outra faz: Ocasionalmente oferece preços bem baixos pra viajar tipo amanhã, de ultima hora. Ou seja, enquanto as outras aumentam o preço quando a data da viagem está próxima, a Webjet dá descontão! Mas há detalhes que o viajante precisa saber. Os aviões estão bem surrados(são da antiga Varig, repintados). É possível notar um certo descaso com a aparência interna. Nos cinco aviões em que estive, não pude deixar de notar o barulho estranho nos motores. Um passageiro ao meu lado disse que se sentia num avião da FAB. O serviço de bordo é adequado, mas não é de graça. Os comissários são ótimos. Os mais descontraídos que eu já vi. A GOL comprou a Webjet há alguns meses e deve tornar-se a líder de mercado com o desaparecimento dessa marca e a incorporação das rotas.

Avianca- Os aviõezinhos da avianca são os menores Airbus que já vi, os A318. Eles tem muito futuro no nosso mercado. Com pouco tempo de operação em Natal, a cia provou que entrou na briga pela preferência do consumidor. O serviço de bordo nessa rota curta é um bombom (sonho de valsa) e, no máximo, um copo d'água (se o passageiro solicitá-lo). Os aviões estão novinhos em folha e todos eles tem entretenimento à bordo. Na minha etapa de voo, assisti a um episódio de friends com opção de audio em inglês ou dublado em português. O espaço entre as poltronas é decente o bastante para o passageiro se sentir confortável.

Conclusão: Avianca oferece a melhor relação custo benefício. Webjet é a mais barata. GOL tem a maior disponibilidade de horários. Uma livre concorrência é isso. Opções pra todos os gostos e bolsos.

sábado, 14 de janeiro de 2012

A jóia dos casais

Outro dia eu estava na rua gravando sobre uma obra inacabada da prefeitura de Natal. Eis que chega uma moradora e lança a seguinte frase.

- Jorge, tenho um FURO de reportagem pra você!

(pausa para minha reação...)
(fui educado e cordial.)
(juro!)

Eu:
-Pois não, senhora. Pode falar.

E ela então profere:
- O motel 'Jóia', o mais tradicional da cidade vai fechar.

(pausa para reação do leitor...)

Não foi só isso:
- E se você quiser, eu tenho o telefone do dono pra lhe passar.

Claro que eu não peguei. Conversando mais com essa senhora, descobri que o motivo do fechamento era mesmo uma questão financeira, quase pessoal. Não valia a pena.

Ao olhar para o cinegrafista, notei que ele estava prendendo o riso. Tão logo ela partiu, a gargalhada foi inevitável.

Depois, pesquisando na internet, li que esse motel é mesmo antigo e já foi palco de um assassinato.




A rua é um lugar fantástico onde a gente vê e ouve de tudo. MESMO!