Estas próximas linhas contém um texto que pode ser muito forte pra quem viveu o assunto. Recomendo prudência aos meus familiares que vão ler.
Em 2001, meu tio Guilherme foi assassinado a mando da própria namorada. O crime deixou uma ferida aberta em todos da minha família. Nos sentimos tocados pela mão cruel da violência. Eu só tinha 16 anos.
Lembro do meu pai um pouco estranho em casa poucos momentos depois de receber um telefonema sobre o desaparecimento do próprio irmão. Foram várias ligações naquela noite e o dia seguinte ainda foi de angústia porque todos permaneciam sem notícias.
Dois dias depois, meus pais me disseram que o corpo foi encontrado em um matagal na periferia do Recife.
Tio Guilherme namorava com esta moça havia pouco tempo, segundo relatos da família. Os dois teriam se conhecido na rua. De dentro do carro, ele a olhou e ela deu bola. Para os amigos, os comentários dele sobre essa mulher se davam sempre acompanhados da palavra 'pitelziho'.
A situação financeira desse meu tio era boa pois ele havia trabalhado a vida inteira num cargo de gerência regional da Johnson&Johnson, se aposentou cedo e abriu uma pizzaria voltada para entregas em domicílio. Ou seja, tornou-se empresário.
Segundo a investigação policial que aconteceu depois do crime, tio Guilherme foi vítima de uma emboscada. Em um dos dias em que estava com essa namorada no carro, ele teve o veículo invadido por comparsas dela. Depois de sacarem dinheiro em um caixa eletrônico, os bandidos teriam perguntado o que fazer. E a tal 'pitelzinho' teria optado pelo homicídio, já que ele a conhecia, sabia onde morava, tinha posses. Foi algo torpe, fútil, sem chance de defesa.
Me lembro claramente do dia do velório. Nunca havia visto minha avó naquele estado. Todos os meus tios ou choravam ou tinham nos rostos uma expressão inconformada idêntica às que hoje vejo a cada reportagem policial que tenho que cobrir quando o assunto é violência, homicídio. Quando a família está por perto do corpo da vítima, é sempre horrível pra mim porque recordo este episódio da minha família.
A quadrilha foi toda presa, inclusive a 'pitelzinho'. O caso saiu na imprensa local recifense, na época. Apesar da justiça ter sido feita, a dor latente foi algo demorou pra se dissipar. Já são onze anos e minha avó nunca voltou a ser exatamente o que era. E acho que nunca vai voltar. Meu pai também mudou muito desde o ocorrido. Entre meus tios, não posso afirmar com exatidão o que mudou em cada um deles. Mas pra mim, como sobrinho dessa família, aqueles dias pós assassinato foram terríveis. Houve muita gente com medo de sair nas ruas. Escutei algumas pessoas cogitando vingança sempre rezando para que nada daquilo fosse levado adiante pois nada o traria de volta. Acho que o grande desafio coletivo neste caso foi perdoar os bandidos. Parece algo impossível, não é? Mas tenho certeza que muitos já perdoaram. E a vida tratou de encaminhar o resto.
O tempo passou. A filha de tio Guilherme se casou e agora tem uma família linda. O filho dele, que também tem o mesmo nome, cresceu e tornou-se um jovem trabalhador como o pai era. A ex-esposa dele também prosperou. E minha avó hoje consegue sorrir de novo mesmo tendo quase noventa anos e passado por um câncer.
Queria muito que todos os meus familiares pudessem esquecer aquele mal horrível e conservar apenas uma imagem boa de tio Guilherme. Afinal de contas, morto só está quem foi esquecido. E a vida tem que continuar. É preciso perdoar de coração mesmo que isso seja a última coisa que desejemos fazer.